Este é o momento em que de uma qualquer forma tento dar vida às emoções que sinto... à alegria que o momento requer... à felicidade de ter cumprido o objectivo... e acima de tudo à sensação de o ter feito bem e sempre a sorrir! As emoções vão assentando, a vida retoma a sua normalidade, mas o tiro de partida e a chegada à meta ainda estão bem presentes... Repetidas vezes revejo a chegada e repetidas vezes olho para ela como se de a primeira vez se tratasse! É que bolas, eu corri mesmo 42,195km!!!  

Ter o prazer da corrida, poder decidir o destino dessa corrida a meu belo prazer, sentir a adrenalina momentânea de um prova foram, desde o inicio, as premissas bases para que abraçasse este projecto e nele continuasse, o de correr. A ausência de uma dessas premissas no devido momento seria, para mim, um alerta para repensar a forma como encarava a corrida.

Faltavam 2 dias para o grande evento e a ansiedade fazia-se sentir... O pensamento contrariava-se nele próprio. Ora oscilava entre a alegria de cruzar a meta, ora deprimia com uma hipotética desistência (hipótese tão válida quanto a primeira). Ora pensava com a razão, ora a emoção ganhava sobre a primeira. Afinal era a minha primeira Maratona. 42km, só de bicicleta! A correr, era terreno desconhecido e incerto. Nesses 2 dias, fui-me distraindo e atraindo a atenção para outros temas... Fugi aos posts publicados e às mensagens de apoio! Tentei encontrar o meu ponto de equilíbrio e bem-estar e nele permaneci nesses 2 dias.

Domingo chegou e com ele a prova! 8h da manha, lá estava eu, Gonçalo e Caldeirinha a caminhar para o Hipódromo Manuel Possolo. Entramos no recinto e damos com o resto dos Vicentes, todos eles, ao momento Aspirantes a Maratonistas. Foto de grupo (obrigada Brigitte), conversa ali e acolá, aquecimento, corrida para frente e para trás e estávamos prontos para o tiro de partida. Uns à frente, outros mais atrás, cada um definia o seu ritmo de corrida e posicionava-se nos respectivos grupos. Pelos treinos longos que tinha feito e pelo registo de ritmo dos mesmos, sabia que 5.30-5.45min/km seria o meu ritmo de conforto para, pelo menos, conseguir fazer os 32km em forma (distância máxima corrida até então). Assim, juntei-me ao grupo do Tiago, David Simão, David Nascimento, Sandro, Cátia Nascimento, Gonçalo e Caldeirinha. Estávamos as horas de concluir o objectivo de tanto treino e dedicação! A Maratona era apenas e somente o culminar desse treino!! Dado o tiro de partida, a habitual caminhada até cruzar a mesma e começamos a correr 3min e 5seg após o tiro.



Iniciava-se a aventura dos 42km mais longos e jamais esquecidos! 
Olho em frente e reparo que, à excepção de mim, Gonçalo e Caldeirinha, os restantes já iam ao cimo da rampa! Optámos pela cautela e fizemos os primeiros 3kms a três e a ritmo muito calmo. Saboreámos o momento e vivemo-lo... Ao fim desses 3kms aceleramos ligeiramente e deixámos para trás o Caldeirinha que dizia estar no redline do seu ritmo. Ficámos reduzidos a 2... Os outros? Continuavam a desfrutavam o momento mais à frente! 
Os quilómetros foram passando e com eles a boa disposição foi-se mantendo. Falámos, rimo-nos,  vivemos o momento, apoiámos quem nos apoiava e filmamos (sim, como se não bastasse o seu próprio peso, o Gonçalo levava consigo uma GoPro). Tudo corria bem. Queixas nem vê-las e menos senti-las. O primeiro sinal da presença do Vicente aconteceu ao km 15: Verónica, Cátia e Matilde apoiam "ruidosamente" quem corria, enquanto o António ia desfrutando da máquina. Como estava disfarçada e sabia que não me veriam se não desse sinal, decido sozinha fazer a festa (nesta fase o Gonçalo estava ligeiramente mais atrás). Vêem-me e oiço então o meu nome a ser chamado - o primeiro folgo estava dado! Chamo-lhes a atenção pelo Gonçalo que vem atrás, também ele disfarçado (foi o único momento em que durante 1km corri sozinha)... Abrando o ritmo... até ser apanhada pelo Gonçalo... continuamos a corrida... .
Chegando a Belém, relembro-me do post do Vasco (já tinha feito as pazes com as tecnologias). Era o momento de centrar a atenção nos viadutos. E após várias tentativas infrutíferas de avistar o cartaz, lá o vemos. Por esta altura, não só as pernas como o coração corriam, estava dado o segundo folgo! 21km já tinham passado, a meia estava concluída... A contagem agora era decrescente... .


Ansiava por chegar ao Terreiro do Paço, porque lá sabia que tinha a Liliana e a Susana à espera, mais do que preparadas para dar o terceiro folgo. E não só recebemos o terceiro, como o quarto, quinto e sexto folgos que precisávamos para continuar. Cruzámo-nos com a Liliana, com os pais do Gonçalo, novamente com a Verónica e o António, o Ildebrando que regressava da corrida com o Tiago, novamente com os pais do Gonçalo e com a Liliana que a partir daí nos acompanhou na corrida e por último com a Susana! Se ainda restavam dúvidas, agora não havia desculpas para não terminar, a motivação estava em altas.


Nestes entretantos de encontros com amigos, pais e Vicentes, passámos pelo David Nascimento que tinha abrandado o ritmo - puxámos por ele, e acompanhou-nos durante alguns metros e voltando depois a abrandar (decisão sensata da parte dele). Mais à frente encontrámos a Cátia a andar, novo incentivo, mas sem efeito - não conseguia mais. Estávamos no quilómetro 33 e já só faltavam 9km! O que eram 9km em 33?? Foram apenas e só os quilómetros mais longos, não pelo esforço, mas por saber que a meta estava ao alcance mas que ainda tinha esses 9kms para fazer. Tentei entender o corpo e a reacção dele ao esforço... Sentia-me bem e não haviam sinais de cansaço extremo... Tinha margem para evoluir e reduzir o tempo actual previsto de chegada. E foi aqui que a verdadeira maratona (psicológica) se iniciou: ou aumentava o ritmo e cruzava a meta sozinha ou abrandava, "carregava" o Gonçalo e cruzávamos a meta em conjunto. Tínhamos sido uma dupla desde o inicio... Toda a vivência da prova tinha sido feita em conjunto... Vangloriava aqueles que tinham a audácia e a capacidade de correr 42km sozinhos, sem poderem partilhar o momento com alguém... Mas eu não estava disposta a fazê-lo... Não seriam nos últimos 8kms que deixaríamos de ser uma dupla. Abrando então o ritmo, tentando manter uma passada à frente da do Gonçalo, sabendo que essa passada seria o suficiente para que ele não quebrasse (Por esta altura a Liliana já nos tinha deixado e ajudava outra Vicente que fazia a Meia Maratona)... km 35, 36 e por aí adiante até ao km 40, momento em que avisto duas Vicentes. Estávamos no início da rotunda do Parque das Nações e eis que oiço a Lurdes e a Madalena gritarem pelo meu nome e correrem ao meu lado. Incansável a Lurdes (que mulher valente e cheia de energia). Tão bem que souberam aquelas palavras Lurdes!!


Olho para o Gonçalo e digo-lhe "Só faltam 2km. Agora não há como desistir"!! E não só não desistiu, como acelerou (ainda hoje estou para perceber onde foi ele buscar aquela energia)! Aqui foi ele a puxar por mim!! Passámos pela Luísa, Miguel Heitor, Vasco, todos apoiavam... Seguiu-se o Tiago que já comia tranquilamente o seu gelado, a Rita e o Pedro, a mana e o Pai... Estávamos a metros de cruzar a meta... Continuámos à velocidade que as pernas nos permitiam... Contornámos a esquina e oiço alguém dizer "Miúda, só te faltam 400m, a Maratona é tua, acelera". E assim fizemos!! Acelerámos... Cruzámos a meta em conjunto... E concluímos a nossa Maratona 4h18min após temo-la iniciado!!

TO BE CONTINUE...